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  • Rômulo Andrade

na Festa do Divino, Paulo Bertran

Atualizado: 30 de Set de 2019


Um fim de século, um fim de milênio. Talvez não sejam conclusivos nem oclusivos: A vida continua. Mas vale a pena olhar para trás , arredondar certas impressões... Rômulo Andrade é um artista plácido cobrindo um homem inquieto. Carioca com metade da vida em Brasília – A Luminosa , misto entre Tamoyo embebido de luzes do mar e a primeira geração dos brasilienses, (que são os primeiros amantes do cerrado) apaixonados pela grandiosidade do seu planisfério libertador.

E esta belíssima cidade de Brasília. Dei de mania, por último de passear pela Praça das Três Raças – já antigamente chamada de Esplanada – com seus palácios gráceis, pensando lentamente. O gênio de Oscar e dos homens da dourada geração 60, fundindo-se às chapadas sutis que adoentaram de amor o naturalista Dr. Glaziou, prefeito de Marseille da França, que formulou a decantada beleza Riviera francesa e italiana com mudas de árvores e palmeira trazidas do Brasil em 1860. Que influência teriam tido as plantas brasileiras de Glaziou sobre as percepções de cor de Van Gogh ou Picasso em suas longas estadias na Riviera? Ou as flores do Cerrado sobre o então já ancião botânico Ernesta Ulle, tomado de estupor pela beleza morena e a graça de Júlia Golão, a flor sertaneja de Pirenópolis, a ponto de nomear famílias inteiras de orquídeas naturais do cerrado de “juliáceas”, como anotava meu velho parente Henrique Silva em 1892. A Febre do Cerrado

Rômulo Andrade foi devastado por ela em Brasília, onde nos tempos ainda fundacionais houve grandes mestres, vindos de entre os melhores do país e aqui plantaram a exigência da excelência, só por agora explodindo suas intumescências na capital sintética do sonho brasileiro.

Ao longo de uns dez anos Rômulo estudou e construiu em seus desenhos a imagem mais poética e transcendente que se poderia esperar da natureza do Cerrado. Seu Catalogum Cerratensis terá algum dia a mesma importância para a história que tiveram as paisagens brasileiras de Franz Post e Eckhout no século XVII e daqueles jovens artistas-cientistas que foram o grande Von Martius, adepto do genial ultra-iluminismo goethiano e a família dos Taunay, tanto os franceses quanto os brasileiros, todos no século XIX. O impacto da deslumbrante natureza do Brasil e dos Cerrados matriciais.

O menino que viu espantado erguer-se Brasília em 60 envelheceu em mim e já me perfila também junto à primeira geração brasiliense. O Rômulo também se transformou. Ajudei-o certa feita a por os pés na Península Ibérica, onde o Andrade imemorial de nome mergulhou fundo neste viveiro de talentos da escola espanhola – talvez a maior do Ocidente no século que se encerra – aquela que gestou Picasso para sempre... Onde Mouros e Cristãos caminham juntos e separados, desde muito antes de Cristo e Mohamed. Europeus e asiáticos, as duas raças saídas do Sapiens Africano, unidas todas de novo no Brasil sob o tecido genético do Planalto Central.

Rômulo trouxe as insígnias ibéricas para a Festa. Seu atual trabalho oferece-se como que à decifração dos enigmas do povo mestiço brasileiro. Símbolos arcaicos, anúncios da fusão das duas linguagens básicas da humanidade, não mais de inimigos, mas de Mouros e Cristãos que se abraçam. As cavalhadas, como de Pirenópolis, que se encerram na confraternização do Divino. Agora, Rômulo pensa a pátria e sonha a Paz consolidada na união das diversidades dos povos e culturas.

Paulo Bertran, poeta, historiador e escritor, maio de 1999

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BIOGRAFIA

Ao longo de quarenta anos, Rômulo desenvolve em sua obra uma precoce abordagem poética dos Cerrados, a natureza única do Brasil central. Nascido em Niterói em 1954, viveu a infância e juventude entre

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