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  • Rômulo Andrade

O grande Oeste e o artista, por Ivany Camara Neiva

Atualizado: Mai 25




Era 29 de março e Rômulo veio contar seus vinte e dois anos. Chá de erva cidreira, biscoito de aveia, talvez algum vinho, conversa de muito tempo. No bloco de recados, ficam desenhos casuais. Em outros momentos, também ficaram vestígios, ensaios. Lembro, muitos marços depois, de um Chico Science e uma Risoflora a lápis, prenúncios de desenhos mais elaborados. E também um bico de pena, um esboço, um cartaz, um bilhete... Em tudo, marcas do artista.


Rômulo chega ao Oeste em meados dos anos setenta, vindo de alguns anos em São Paulo e dos tempos de criança no Rio. Trazia já com ele os contrastes da vida na cidade grande, das lembranças da infância perto do mar, do bairro de Jacarepaguá, rua calma, vizinhanças, árvores e quintais. Vem para Sobradinho, contraponto. Vinte quilômetros nos afastavam e aproximavam de Brasília, que víamos lá de cima, da chapada da Contagem. São terras antigas, acolhendo novos moradores e nos lembrando histórias de outros tempos. Lá embaixo, as luzes da cidade branca, nave pousada no altiplano.


Sobradinho era assim: cerrado, chapada, memória e tempo presente. Uma terra que tem um rio chamado Sonhém... Gente de todo canto e com muitas propostas vinha para esse lugar de ruas planejadas, mas com jeito de cidade brasileira de pé de serra. Era um tempo bonito, esse da chegada do Rômulo: época de extremos. Viviam-se as perseguições, a censura, o regime militar, e também as muitas brechas e rupturas transformadoras. Em Sobradinho então se reuniam muitas pessoas em busca de mudanças, de vida e expressão, alimentação equilibrada, autoconhecimento, afetividade e saúde. Estavam por ali artistas, estudantes, estudiosos, astrólogos, poetas, iogues, hippies, revolucionários, músicos, pessoas comuns com muita história pra contar. Conviviam comunidades alternativas com moradores antigos do tempo das fazendas, migrantes vindos pelo chamado das construções da capital. Um pouco de lugar imaginário, um pouco de terra de trabalho – algo que se expressa na arte inicial de Rômulo: a suavidade dos mantras, o silêncio, um sopro do Tao, na luz que se espalha na paisagem do cerrado. Aos poucos o artista vai se enraizando, tomando posse da terra e suas águas, da linguagem da natureza e dos povos deste lugar.


Coisas da Terra e Ordem do Universo não eram apenas nomes de restaurante e jornal, mas palavras de ordem e pontos de encontro, tendo seu norte e pouso em Sobradinho. Ali na Quadra 2 e em outros cantos, se encontravam Ary Pára-Raios e o grupo XPTO – depois Esquadrão da Vida, o Wanderlei, Tetê Catalão e Verinha Lessa, Brother e Martinha, Joba Tridente, Selminha, Paula Bockel, Joe e Margot Shalders, Sheila e Telmo, Júlio Barroso e tantos outros, convivendo com artistas como Agadman, Andrade Junior, Abinoen, que lá estavam residindo antes de nós.


O grande Oeste nos falava de memória, tempo, viajantes, culturas. Os desenhos noturnos de Rômulo, feitos no aerógrafo vão sendo elaborados, dialogando com tecidos e grafismos indígenas. Uma arara atravessa o grande círculo. Os blocos de Brasília recortam o expressivo relevo do cerrado. O céu de são João ilumina de bandeiras e balões o ondulado horizonte do Planalto Central. Salamandras de fogo convivem com calangos. As árvores retorcidas contrastam com a amplidão do céu de maio. Búzios revelam lembranças de um mar distante, mas que permanece presente na memória. Signos ancestrais da Amazônia, de sítios arqueológicos do rio Negro, do Xingu apontam para uma busca de raízes brasileiras. Palavra, gesto, forma, matéria conversam com a história das pessoas, o estudo das plantas nativas, a aprendizagem dos bichos desta região das muitas águas, ponto de convergência de muitos caminhos. Rômulo se reconhece nas cores da tapiocanga, nos óxidos minerais do cerrado e a descoberta de sua nação o faz universal.


Brasília nos fazia e faz trabalhar, e buscávamos (a busca continua) atividades que nos permitissem além da sobrevivência, sonhos de convivência cooperativa, de uma existência mais criativa, busca de harmonia e qualidade no viver, sem sucumbir ao contexto hostil. São tempos de enfrentar desafios e enfrentar as lutas políticas da época. Os anos setenta e outros períodos, de lá para cá, foram marcados por perseguições e censura. Sobrevivemos, alguns de nós.


Rômulo sobreviveu. E vive sua Arte em todas as atividades, constrói-se professor desde os tempos do Opus, primeira academia da cidade inaugurada em 1976, em que as práticas corporais se fundamentavam numa visão integral da vida. Nas escolas da rede pública, já passaram gerações de jovens que com ele descobrem detalhes da história do Paranoá, da natureza do Centro-Oeste, uma história mais profunda do Brasil e a Arte - seja nos tempos do Centro de Criatividade da 508 Sul, nas ações do Movimento dos Artistas pela Natureza, nas muitas exposições e mostras em escolas, oficinas e cursos.


E é assim. Chapéu de abas largas, ou cabelos longos já grisalhos ao vento, lá vem Rômulo pelos atalhos da Quadra 10 do Paranoá, ou caminhando pela W3, pela aldeia Bambuzal ou de qualquer lugar, e traz nas mãos algum presente. Uma folha de árvore, uma Mãe do Mundo em papel maché, um poema para partilhar, o nome de um novo amigo, a notícia sobre uma exposição, um concerto, uma nova imagem, uma postagem em rede social. Já faz tempo que viramos o século e lá vem o Rômulo subindo as escadas, descendo do carro, andando pelas ruas e ruelas de Diamantina. Caminhando nos bambuzais do Capão da Erva, onde mora, trazendo perguntas e respostas. No Jardim Botânico, mostrando seu novo projeto, mais uma canção, um livro inédito, uma pincelada e descoberta de tom.


Ao longo dos anos, no dia-a-dia, sua presença sugere sensibilidade, inquietação e busca (como ele próprio diz) pelo Belo, o Bom e o Justo. Pela Arte, Rômulo sinaliza a urgência e a possibilidade de uma visão mais consciente e sustentável do mundo. Uma convivência alegre, prazerosa e mais delicada, cuidadosa com cada um e com o ambiente que construímos. Os amigos e companheiros, os filhos e filhas, os alunos, agradecem e partilham esse projeto de mundo e as práticas de todo dia. Suas flautas luminosas sinalizam o caminho e as bandeiras do Divino, o Espírito Santo que nos proteja.

Que assim seja.


Ivany Camara Neiva, historiadora da cultura, abril 2015



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BIOGRAFIA

Ao longo de quarenta anos, Rômulo desenvolve em sua obra uma precoce abordagem poética dos Cerrados, a natureza única do Brasil central. Nascido em Niterói em 1954, viveu a infância e juventude entre

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