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  • Rômulo Andrade

A educação pelas árvores, os pássaros e as pedras, Ailton Krenak

Atualizado: 30 de Set de 2019



Uma geração inteira de pensadores artistas formada na luta política em nosso país, com suas antenas aguçadas atinaram desde cedo, lá pelos anos 70 que Natureza e criação nas artes eram matérias do espírito, e logo iniciaram uma cruzada no meio cultural com sensível abertura de espaços no imaginário e nos tímidos meios de comunicação daqueles tempos. ‘Artistas pela Natureza´ nasce com esta marca de caçadores de beleza nos rios, nas matas, cerrados e chapadões. Entoando canções do Tom Jobim, águas de março, chuvas, pedra e pau; Gilberto Gil, Egberto Gismonti e Bené Fonteles vieram puxando um cortejo com grandes flautas Assurini, e lançando as redes Yanomami aos espaços da consciência - Armadilhas indígenas. Cildo Meireles, Athos Bulcão, Rubem Valentim, Lygia Pape, Xico Chaves, Amilcar de Castro, Roberto Mícoli, Marcos Benjamim, Emmanuel Nassar, Siron Franco, Miriam Pires, Marlene Almeida... muitos outros que aqui não caberia seguir a lista luminosa, e Romulo.

É desta estirpe de gente terra fogo vento ar que vem Romulo Andrade. Vem com líquens e gravetos nos cabelos. Feito faunos, eles dançam pelas águas, pelas florestas e seus habitantes, gentes e bichos. Ecologia para Romulo é a arte em movimento engajado, paisagens oníricas e signos gravados em pedra, símbolos ancestrais. É isso que transpira a série Memória das Águas, suas pinturas ameríndias que resultaram de uma longa viagem amazônica. Viagem de argonautas, o mundo de águas e florestas visitadas pelas antenas do poeta, avistando as rupestres marcas que remontam à antigas civilizações. Inscrições feitas em relevo nas rochas, encontradas desde a América central à do sul, com pedra dura que tanto bate que entalha, grava. Painéis a céu aberto que remetem a ritos cerimoniais, caçadas e pescarias. Armadilhas, como aquelas que ainda podem ser vistas numa releitura, dialogando com artefatos e objetos de uso cotidiano do acervo etnográfico do Memorial dos Povos Indígenas, com as obras do Romulo, e uma provocante pergunta sobre o tempo destas criações. Com arte indígena contemporânea & Artistas pela Natureza. Mais de três décadas de expressão da arte/ natureza engajada está ali, com um vocabulário que pode ser entendido mesmo pelas crianças que visitam as mostras deste brasileiro que se tornou defensor do Cerrado, de um sertão que teima em existir entre campos, veredas e buritizais.


Agora, Romulo entrega essas Memórias das Águas, como uma dádiva para este mundo desgovernado de secas e rupturas, onde os humanos seguem como zumbis a insensata corrida para o fim do mundo. Ao mundo que herdamos de nossos ancestrais, com a missão de entregar aos nossos filhos e netos, às futuras gerações. Há momentos em que Romulo vê sete gerações a nossa frente, e busca as memórias ameríndias em suas mirações. Com materiais e recursos dos mais diversos, aqui são lonas envelhecidas restauradas e reinventadas com arte, remos de madeira e canoas, bastões de cana de buriti entalhados a fogo. A viagem pelos sertões e veredas é sem fim, assim como o sonho de um dia a arte ensinar aos humanos a linguagem das árvores, dos pássaros e das pedras.


Aílton Krenak, agosto 2016

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BIOGRAFIA

Ao longo de quarenta anos, Rômulo desenvolve em sua obra uma precoce abordagem poética dos Cerrados, a natureza única do Brasil central. Nascido em Niterói em 1954, viveu a infância e juventude entre

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