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  • Rômulo Andrade

As grandezas do ínfimo, Celso Araújo

Atualizado: 30 de Set de 2019





Bandeiras, estandartes, lonas, caixas de memória, poema-objeto ou objetos microscópicos inseridos num conjunto de grandezas. A natureza pede celebração, contemplação e consciência, mesmo diante do trágico. Assim dizem as obras que vemos nesta mostra intitulada As grandezas do Ínfimo, de Rômulo Andrade. Concebida para esta galeria por ocasião do II Fórum Internacional sobre a Amazônia, realização da Universidade de Brasília, traz 12 obras do artista em diálogo com as artes de cinco convidados que conviveram em seu vasto estúdio. Têm por origem os fluxos, pulsações, traçados e materializações do mundo amazônico, a nossa grandeza natural mais pujante. No ateliê por ele chamado de Nação Cerratense, estamos numa aldeia em que respiram totens, madeiras, fibras, metais, troncos de buriti, remos, flechas, sons de etnias e imagens documentais. Essas peças tornam-se com o tempo um campo estético de desenhos, anotações, pinturas, aquarelas e esculturas.


Levam a risco as artes visuais que não se contêm em dimensões comuns ou habituais, fora de hierarquias. O ínfimo pode construir grandezas. As grandezas são constituídas de pensamentos mínimos e pontuais, como se pode ler na obra Tratado geral das grandezas do ínfimo, do poeta Manoel de Barros, lançada em 2001, livro que se tornou um dos instrumentos de navegação deste artista formado pela UnB e integrado à história cultural de Brasília nas últimas quatro décadas.


Em 2000, Rômulo Andrade integrou o grupo de biólogos, historiadores, botânicos, antropólogos, fotógrafos e ambientalistas que participaram da Expedição Humboldt, traçando séculos depois o planejado e não realizado percurso do polivalente cientista alemão Alexander von Humboldt pelos rios Negro e Amazonas, numa jornada de dois meses. Ao seguir espaços e passos, os próprios do artista, os do poeta e os do cientista, Rômulo pode elaborar quase infinitamente as marcas desses jogos de origem íntima, de fatura plural, de leituras da memória e construções da paisagem.


Em sua trajetória com as artes, desde os seis anos de idade, quando fez uma aquarela de um pé de carambola, Rômulo Andrade imerge na natureza; aqui, neste caso, da Amazônia, mas seus olhos estão voltados há muito tempo para o grande sertão, para as nascentes, biomas e etnias, lutas e imaginário do Brasil.


Rupestre ou exuberante, contido, teso e sincero - técnica é sinceridade -, ele embaralha as possibilidades dos suportes e movimentos da arte, cruzando matérias e formas, estrelas do mar e luzes do cerrado, rituais da floresta e festas do divino, dando-se ao desfrute de ser ao mesmo tempo aprendiz e mestre do seu fazer. “Bom é constar das paisagens como um rio, uma pedra”, escreve Manoel de Barros. Rômulo sabe dessas coisas que ensinam e trazem luz aos tempos. O ínfimo é nossa herança e horizonte.


Celso Araújo, compositor e jornalista cultural, 2019.




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BIOGRAFIA

Ao longo de quarenta anos, Rômulo desenvolve em sua obra uma precoce abordagem poética dos Cerrados, a natureza única do Brasil central. Nascido em Niterói em 1954, viveu a infância e juventude entre

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